Noé | Crítica

Ivanildo Pereira 07/04/2014

Noé | CríticaQuando tinha 13 anos, Darren Aronofsky escreveu um poema sobre o mito bíblico de Noé. Naquela época o futuro cineasta se dizia obcecado por religião e considerava essa história em especial bastante assustadora. E realmente é: Deus decide acabar com tudo por estar decepcionado com a humanidade, e o herói da história sabe que o fim do mundo está próximo, mas sua única preocupação é salvar os animais.

Com o tempo, Aronofsky se tornou um novo talento do cinema americano. Seu ultimo longa, o suspense Cisne Negro (2010), foi um grande sucesso de bilheteria e finalmente catapultou o diretor para o alto escalão hollywoodiano. No entanto, o fascínio pela história de Noé permaneceu. O sucesso de Cisne Negro enfim deu carta branca ao diretor, mas a história bíblica, no fim das contas, serve apenas como inspiração para a poderosa visão de Aronofsky. “Noé”, o filme, tem seus problemas, mas é 100% fiel à visão do seu diretor. Não haverá outro blockbuster como ele este ano.

No filme, Noé (vivido por Russell Crowe) vive com sua família numa terra devastada, distante da linhagem de humanos descendentes de Caim, marcados pelo pecado do assassinato de Abel. Um sonho com imagens da criação, sangue na terra e uma grande inundação o leva a se consultar com seu avô Matusalém (Anthony Hopkins). Ambos chegam à conclusão de que o Criador em breve vai “reiniciar” a Terra em decorrência da corrupção do Homem. Uma grande inundação virá, e Noé e sua família tem como função construir a enorme arca para abrigar os animais da Terra.

Noé | CríticaO que mais chama a atenção em “Noé” é o aspecto visual. As imagens são impressionantes desde a sequência inicial (ao som da trilha bombástica de Clint Mansell), com ícones e simbolismos que nos situam na mitologia bíblica. É no início também que surgem os primeiros instantes de “licença poética” de Aronofsky e seu co-roteirista Ari Hendel: os gigantes de pedra conhecidos como Guardiões, levemente inspirados em conceitos existentes na Bíblia. Aliás, essas curiosas criaturas também servirão a outro propósito no roteiro, o de ajudar Noé a construir a gigantesca arca – outra imagem grandiosa e difícil de esquecer.

Não deixa de ser curiosa a forma como os roteiristas se preocuparam em tornar a história verossímil (bem, pelo menos um pouco). Claro, a história de Noé é uma alegoria, uma parábola destinada a nos ensinar algo e não deve ser interpretada de forma literal. Mas, de acordo com o gosto das plateias de cinema de hoje, o roteiro busca a verossimilhança A maneira como os animais são atraídos para a arca e o “gás” usado para anestesia-los são detalhes funcionais que ajudam a deixar mais crível a narrativa.

Os efeitos visuais usados para retratar os animais – inteiramente criados no computador – rendem imagens espetaculares, com milhares de pássaros, répteis e outras criaturas enchendo a tela. Outras imagens, como a inesquecível cena das pessoas se agarrando a um monte, tentando escapar das águas, ou a história contada por Noé a bordo da arca são momentos que deixam clara a riqueza da concepção visual de Aronofsky. Aliás, nessa mesma sequência na qual Noé conta a história do mundo, chama a atenção a inclusão de imagens que parecem remeter à teoria da evolução: células que se aglomeram e dão origem a animais, que por sua vez dão origem a outros animais… O próprio Noé é caracterizado como amante da natureza e afeito a preocupações quase “ecológicas”, e isso também contribui para aproximá-lo das plateias modernas.

No entanto, outros elementos desse mesmo roteiro acabam prejudicando a experiência. A busca de Cam (Logan Lerman), filho de Noé, por uma candidata a esposa, deixa algumas cenas com ar meio tolo – e também é difícil aceitar que o rapaz teria sentimentos tão fortes por uma moça que acabou de conhecer. Os gigantes também ajudam o filme a cumprir a “cota de cenas de ação”, obrigatória em todo blockbuster moderno, e se envolvem numa batalha que lembra a trilogia O Senhor dos Anéis. Outro clichê surge na figura do antagonista Tubal-Cain (Ray Winstone). O ator tem uma presença forte, e Noé e Tubal-Cain são vistos, por grande parte do filme, como duas faces da mesma moeda. Mas o conflito entre eles é resolvido da maneira tradicional: no braço. Afinal, todo blockbuster tem um herói e um vilão, e eles precisam resolver suas diferenças brigando.

Noé | CríticaRussell Crowe tem no protagonista outra atuação forte para a sua carreira, mas o melhor desempenho em “Noé” é o da jovem Emma Watson como Ila. Ela tem algumas cenas bastante poderosas no final do filme, e a atriz não decepciona. E a respeito disso, mais interessante que a luta entre Noé e Tubal-cain é o conflito dramático que envolve Ila e sustenta todo o terceiro ato da narrativa, a bordo da arca. Nesse trecho do filme Noé é transformado de herói em “quase-vilão” devido ao seu fanatismo religioso.

Afinal, o Criador, do qual o protagonista diz conhecer suas intenções, não parece ser benevolente e permanece mudo. Ninguém o vê, todos o temem, até os gigantes. Noé tenta falar com ele diretamente, mas não há resposta, e apenas sua ira é percebida (via dilúvio), assim como os poderes com os quais ele momentaneamente presenteia alguns dos personagens.

Em virtude desse silêncio, é curiosa também a postura final do longa de valorizar a humanidade. Em meio a toda a destruição, podemos contar com nós mesmos e, no fim das contas, a decisão de existir ou não está sempre em nossas mãos. Claro, como ocorre em todas essas histórias, sempre há mais de uma interpretação possível e o Criador pode ter mesmo tido alguma influência no destino final de Noé e sua família (como o desfecho faz questão de indicar). Porém, Aronofsky e Hendel são inteligentes o suficiente para permitir mais de uma interpretação, mais de uma “moral”, à história que estão contando.

Noé | CríticaNoé é um homem que tem uma visão e luta para torna-la realidade e salvar o mundo. Não é muito diferente de Darren Aronofsky, que sonhou com essa visão há bastante tempo e agora conseguiu dar-lhe vida no cinema. “Noé”, o filme, parece com os velhos épicos bíblicos do passado de Hollywood: ocasionalmente é melodramático e até mesmo tolo, se apoia em alguns clichês, mas também consegue ser brilhante em vários momentos. Se não dá para ter muita esperança no Criador visto na história, dá para se ter esperança em Aronofsky. Se hoje em dia, um estúdio de Hollywood ainda tem coragem de dar cerca de 100 milhões de dólares a um cineasta para satisfazer sua ambição de levar um publico numa viagem tão pessoal e diferente do esperado, então ainda podemos acreditar no cinema americano.

Cotação: ★★★★ Muito Bom


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